08 janeiro 2007

"Deitar mãos à obra"



"«O que me surpreende é que tão poucos pensem que também poderiam saborear os frutos do paraíso.»


Henry Miller (1891-1980), Bis Sur e as Laranjas do Jerónimo Bosh (Livros Brasil)
Às almas peregrinas que de longe para visitar o escritor Henry Miller era dado o privilégio de passear com ele junto à sua escarpa com sequóias gigantes e vista para o Pacífico, de sentir os cheiros e o ritmo selvagem do lugar, de horas de conversa espreguiçando-se, entre livros e cafés e interrupções pelas brincadeiras das crianças. Sabiam que no dia seguinte ele continuaria ali, avançando nas páginas em atraso, numa paz eterna, o mar como cenário, belíssimo e inacessível. E demoravam-se na despedida, com uma expressão entre admiração e inveja: «Você tem cá uma sorte.»
A Miller fazia-lhe confusão a impotência das pessoas: queriam viver como ele, mas não o faziam. Não lhe foi difícil saber porquê. «Por certo toda a gente se dá conta, a determinada altura do caminho, que é capaz de viver uma vida muito melhor do que aquela que escolheu. O que geralmente detém as pessoas é o medo dos sacrifícios inerentes. (Até libertar-se dos seus grilhões lhes parece um sacrifício)» E esta é a maior razão de perplexidade.
Que tenhamos medo dos «sacrifícios inerentes» é perfeitamente legítimo, estamos programados para não gostar deles. Preocupante é quando a recompensa nos parece, ela mesma, um sacrifício. Libertar-nos daquilo que nos sufoca, por exemplo. Como se já não soubéssemos viver em liberdade. Como se a perspectiva de ficarmos sem as rotinas e as vozes de comando que nos deprimem e atormentam fosse um passo no abismo.
Olhamos para trás, vemos a energia dos nossos sonhos antigos, e ficamos tristes por perceber a que distância estamos deles. E no entanto, mesmo sem assumir a ruptura radical de Miller, libertarmo-nos dos grilhões só custa num primeiro passo. Acordamos uma ou outra madrugada no pânico da liberdade: e agora, o que é que eu faço? Depois, uma a uma, lemos as respostas pelos cantos. A nova ordem compõe-se desses segredos.
Acima de tudo, será a nossa ordem. Com as nossas sequóias gigantes e a nossa vista para o Pacífico. E, para se ser de carne e osso, com outro elemento igualmente muito nosso: «Com certeza que o paraíso, seja ele qual for e onde for, contém imperfeições. Se não tivesse seria incapaz de atrair os corações de homens ou de anjos.»"

Xis, Público 30-12-06

10 comentários:

Fatyly disse...

Raros são os que efectivam mudanças radicais, que requer muita força de vontade para superar o inesperado.
Gostei desta reflexão.
Beijos

elsa disse...

Que texto tão intenso e tão verdadeiro!!!

A MUDANCA disse...

E não tenho dúvidas que não sabemos viver em liberdade...
óptimo texto.

Beijinho

FF

ivamarle disse...

tenho de buscar as minhas sequóias...

Luís Galego disse...

Olhamos para trás, vemos a energia dos nossos sonhos antigos, e ficamos tristes por perceber a que distância estamos deles.

não deixa de ser um murro no estomago....

Luís disse...

Gostei muito... fiquei com vontade de arregaçar as mangas e construir de imediato o meu "paraíso de sequoias gigantes e vista para o pacífico" =)


Excelente post

Luís disse...

Gostei muito... fiquei com vontade de arregaçar as mangas e construir de imediato o meu "paraíso de sequoias gigantes e vista para o pacífico" =)


Excelente post

Luís disse...

Gostei muito... fiquei com vontade de arregaçar as mangas e construir de imediato o meu "paraíso de sequoias gigantes e vista para o pacífico" =)


Excelente post

Ana disse...

Muito bom.

Emiliano disse...

oi, só quería saber o que é que é "deitar o passo", sou mexicano e o meu portugues não é o melhor, obviamente.
ficaria muito agradecido. obrigado