12 abril 2007


Peço em vão às ondas que me levem… que me lavem…
Sinto a alma suja, as pegadas que vou deixando pelo caminho perseguem-me. Como se o rasto de mim próprio me ficasse eternamente a lembrar os caminhos que não devia ter seguido.
Como posso querer que as ondas me lavem a alma se nem estas pegadas que deixo para trás desaparecem à passagem da água? Cada onda que passa as pegadas cravam-se mais fundo na areia. E movem-se, movem-se na minha direcção. Passo a passo, todos se viram para mim acusadores. Os que dei em falso, os que dei no escuro, e mesmo aqueles que pensei serem seguros. Todos apontam na minha direcção humilhando-me, deixando-me completamente exposto.
Pegadas incorpóreas que me seguem e acompanham. Agoirando cada novo passo que dou, cada esperança de fuga, que de imediato também se vira contra mim.
Paro. Rodeado por pegadas que me barram o caminho, não sei qual o próximo passo. Ondas sucedem-se, mas as pegadas nem sequer desvanecem. Inquisidoras, olham-me querendo saber o porquê.
Só há uma direcção para onde ir. O próximo passo dou-o em direcção à água. Vou mar adentro, piso as ondas que contra mim vêm. Caminho em direcção ao mundo sem pegadas. Não ficam nas ondas marcas da minha passagem. Instáveis, esfumam-se e mergulham e voltam outra vez. Já ninguém vê que por lá passei.
Mas nem aqui é permitido falhar. Um passo em falso e enterro-me água a dentro. As ondas pairam agora acima da minha cabeça, e debaixo dos meus pés volto a sentir o chão. Começo de novo, passo ante passo. Carrego agora comigo o peso das ondas a rebentar. É este o preço de querer fugir.
Já sinto outra vez as pegadas a espiar-me, sinto-lhes os olhos cravados nas costas. Continuo a andar sozinho, mas agora carrego comigo o peso da cobardia, e mais uma mentira… Sou a onda que para fugir à praia rebentou na rocha.

11 comentários:

ivamarle disse...

mesmo que não fiquem marcas físicas, a tua passagem deixar-te-à sempre, marcas indeléveis na Alma...

Luís disse...

E mesmo assim prossegues...

Luís Galego disse...

Continuo a andar sozinho...

quem escreve assim já não vai tão só...cá estamos e a gostar do que escreves...

Tangerina disse...

Gostei muito do texto. Espero, sinceramnete, que seja ficção porque, a ser verdade que sentes isso, estás encurralado e asas não tens. Não podem haver assim tantas e tão demolidoras razões para te sentires humilhado. Acredita que todos erramos. Todos.Quanto às pegadas...deixá-las! O mar há-de levá-las.E não há cobardia em ti, há é vontade de mudança.

Bj citrus:))

elsa disse...

Se és a onda que para fugir à praia, rebestas a rocha, é porque em ti existe Força... e quando há FORÇA... há vontade de seguir em frente, por isso segue as pegadas do teu destino e abarca o que em ti há de verdadeiro: TU!
beijo

PS disse...

A vida é uma susseçao de dias, inevitavel, dificil é acreditar que amanha sera melhor e mesmo assim despertar para o novo dia com força.
Vim retribuir a visita e devo dizer que gostei imenso deste espaço, os textos sao muito bons! voltarei...

caminante disse...

Caro amigo, bellas palabras las tuyas.
Me permito un consejo. No serán las ondas del mar las que te laven y te hagan rectificar el camino. Sí será Él, nuestro Dios, el que te lave en la Sangra Preciosa de su Divino Hijo. El Sacramento de la Reconciliación es el lugar.
Gracias por escucharme.
Un fortísimo abrazo.

psique disse...

sentido...mas um excelente texto .

Fatyly disse...

Para começar gostei muito deste teu texto onde descreves um círculo do qual por vezes é bem dficil de sair porque cabisbaixo fixamo-nos no passado sem olhar para o horizonte.
Há que retirar a mentira, sentar no círculo que nos sufoca, respirar fundo, levantar e continuar em linha recta, deixando as pegadas que o tempo irá apagá-las. Partindo a focinheira da alma no encarar da verdade é a onda que nos preenche.

Um beijo do tamanho de uma onda grandona :):)

BlogMinho disse...

I Encontro de Bloggers e Leitores de Blogues do Minho
Vamos lançar um conjunto de iniciativas que visam devolver ao Minho uma voz activa e lançar um verdadeiro debate em torno das questões estruturantes da região mais portuguesa de Portugal.

Déjàvu disse...

Adorei...é lindo mesmo
Assim a escreveres nunca vais estar só
a escrita é sempre a nossa melhor companhia, o nosso refúgio
e tu vais conseguir prosseguir e aguentar a força das ondas e muito mais...
continua a escrever